DÍZIMO, OFERTA, DONATIVOS E CARIDADE - Antoninho Tatto
Uma questão que é sempre levantada nos encontros sobre o dízimo, e gera uma certa confusão, é a diferença entre dízimo, oferta, donativo, caridade. Eis a respoosta a sua pergunta em forma de reflexão, conforme livro “Dízimo Ministério da Partilha” de O Recado Editora. Quando é Dízimo? Quando estamos falando de dízimo, falamos do valor entregue na comunidade paroquial. Comunidade onde celebramos a fé, onde participamos. “Então, ao lugar que o Senhor escolheu para estabelecer nele seu nome, ali levareis todas as coisas que vos ordeno: vossos holocaustos, vossos sacrifícios, vossos dízimos, as primícias e todas as ofertas escolhidas que tiverdes prometido por voto ao Senhor. Guarda-te de oferecer teus holocaustos em outro lugar”. (Deut.12,11.13). Também o texto de Malaquias 3,10, usado de todas as maneiras para justificar o dízimo, diz algo importante: “Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa...”. Por casa do Senhor, podemos entender a nossa, casa onde não pode faltar o alimento necessário para a dignidade humana, todo tipo de alimento: comida, vestuário, moradia, saúde, lazer, estudo, enfim, tudo o que uma pessoa precisa para ser feliz. Mas Casa do Senhor é também onde Ele quer estabelecer sua morada permanente, em nós mesmos, dentro de nós. São Paulo nos lembra que somos o “Templo do Espírito Santo”. Mas, de modo especial, o alimento não pode faltar na casa do Senhor, pois é o lugar onde todos nos alimentamos espiritualmente, o lugar onde nos reunimos para celebrar a nossa fé, para aprofundar a fé e para depois testemunhar esta fé em Jesus. É neste lugar que não podem faltar os recursos necessários para que a Igreja possa desenvolver todo seu trabalho de catequese, a liturgia e todo trabalho de evangelização das diversas pastorais organizadas. Neste lugar, no templo de minha comunidade, o dízimo deve ser entregue. E o que entrego nesta comunidade é simples devolução de algo que apenas está sob minha administração, que não me pertence, pertence a Deus. Portanto, não estou fazendo nada de extraordinário nisso. Por isso se diz que, ao dar o dízimo, não adquirimos nenhum direito ou privilégio. Estamos dando porque já recebemos. O sentido do dízimo é a gratuidade. Se por ser grato, fiel, obediente, Deus quiser me dar mais, me abençoar também por causa disso, é pura bondade Dele, é misericórdia de Deus, é porque Ele “jamais se deixa vencer em generosidade”. Quando é Oferta? A oferta tem outro sentido, muito bonito, muito especial. Daquilo que é meu, do que me pertence por direito, que Deus me concedeu gratuitamente, quero dar uma parte, também gratuitamente, como expressão de amor e gratidão por tudo o que recebo de Deus. Cada um tem uma motivação para fazer esta oferta, que brota do coração generoso, sem obrigações, sem normas, mas pelo simples prazer de amar, de dar. Aqui muda o sentido de pertença na comunidade. Pertenço, por isso me alegro em contribuir. Não é o sentido de contribuir para pertencer. Um momento muito especial para entregar a oferta é no ofertório da Missa. Naquele momento, o levantar-se do banco, sair em procissão em direção ao altar tem o sentido comunitário de caminhar, todo o povo, em direção ao altar do Senhor, para lá oferecer algo do que temos, do que somos. Bem do jeito do povo de Deus no passado que ia em caravanas para o templo, em Jerusalém. “Celebrarás então a festa das Semanas em honra do Senhor teu Deus, apresentando a oferta espontânea de tuas mãos, a qual medirás segundo as bênçãos com que o Senhor, teu Deus, te cumulou ”(Deut.16,10). “Durante sete dias festejarás o Senhor teu Deus, no lugar escolhido por Ele, porque Ele te abençoará em todos os teus frutos, e em todo o trabalho das tuas mãos, e estarás assim na alegria”(Deut.16,15). Isto deveria acontecer, pelo menos para os homens, três vezes ao ano. E recomendava: “Não aparecerão diante do Senhor de mãos vazias” (Deut.16,16). Da mesma forma nos apresentamos diante do altar no momento em que o sacerdote oferece o Pão e o Vinho, parte das nossas oferendas, que na Consagração se tornam o Corpo e o Sangue de Jesus, e que retornam depois para cada um de nós na comunhão. Toda nossa oferenda é abençoada, nós somos abençoados quando, nesta caminhada, nos colocamos no altar para que o sacerdote nos ofereça. Não participar da procissão das oferendas, e não reservar algo durante a semana para oferecer, seria uma grande perda, uma pena mesmo. A oferta entregue neste ato comunitário tem também o sentido de testemunho público de nossa fé e de nossa generosidade para com as coisas de Deus. Como o dízimo, a oferta também só tem sentido quando participamos da comunidade. Já dissemos que dízimo é semente de prosperidade. A oferta também é semente de prosperidade. Naturalmente a oferta é fruto do nosso trabalho, do nosso emprego ou de um empreendimento de que participamos. Pois bem, é este trabalho, o emprego ou o nosso comércio que será abençoado conosco. Quem vive da lavoura, a sua oferta é fruto das colheitas. Esta oferta é semente abençoada. É como se o agricultor levasse todas as sementes para serem abençoadas antes de plantá-las. Em muitos lugares o povo tem o costume bonito de levar um pouco de semente que será plantada para que o sacerdote abençoe. Aquelas poucas sementes representam a totalidade que será plantada e tudo é abençoado. Quem não acredita que Deus abençoa a cada um de nós, cada gesto de generosidade, de solidariedade, de amor? Pedir a bênção de Deus, querer Sua bênção já é um ato de amor, de reconhecimento de que Ele é nosso Senhor. Portanto, se a semente é abençoada, o fruto todo que colheremos também já vem abençoado. Sim, porque tudo vem de Deus. E o que vem de Deus é bênção sobre bênção. É muito bonito ver nas comunidades onde pregamos sobre o dízimo, na “Celebração da Partilha”, quando convidamos todo povo para participar do ofertório, ver que ninguém fica no banco, todos fazem questão de participar. Cada um traz sua oferta, muitos trazem oferta material, outros não têm nada para oferecer naquele momento, mas entenderam o sentido e se aproximam do altar para se oferecer. Coisas incríveis aparecem nas cestas nessas horas como oferta. Na Paróquia Santo Antônio, em Frederico Westphalen RS, numa das capelas que visitamos, apareceu uma bala na cesta por duas vezes. Imaginamos que uma criança tenha dado esta bala. Entregar naquele momento uma bala - qual criança não gosta de balas?- é muito significativo. Apareceram também outros objetos, como escapulários, crucifixos, terços e até um anel de brilhantes. Na Catedral, nas várias missas, entre os objetos ofertados, apareceram quatro anéis. Com certeza algo aconteceu no coração daquelas pessoas, naquela hora. Não podemos deixar de destacar que, nestas ocasiões, as ofertas em dinheiro foram em média dez vezes mais do que de costume. Na próxima Missa e em todas as Missas de hoje em diante, não deixe de se apresentar diante do altar com as mãos cheias de sementes. Sua vida, antes de tudo, a semente mais preciosa! Mas também parte do que você produziu, como gesto de gratidão, sementes que serão multiplicadas, “30, 60, 100 por um”; leve tudo e entregue com alegria. “Porque Deus ama quem dá com alegria”, diz São Paulo. Quando é Donativo? Os donativos também, como acontece com a oferta, são diferentes do dízimo, porque dou da parte que me pertence. Normalmente damos nossos donativos para entidades que desenvolvem trabalhos relevantes na sociedade em benefício dos menos favorecidos. Sentimos no nosso coração o desejo de diminuir o sofrimento do próximo. Todos sentem isso, e muitas vezes não sabemos como fazer. Quando alguém desenvolve um trabalho para atender estas necessidades de forma organizada, consciente, libertadora, temos a obrigação moral de ajudar. O donativo se aplica, portanto, nos casos em que eu desejaria fazer algo especial, algo bom , útil e necessário. Mas por alguma razão não posso fazer. Se posso fazer, devo fazê-lo eu, e não deixar que outro o faça por mim. Mas se eu realmente não posso, ou não tenho jeito para a coisa, então sim, posso contribuir com os que fazem. Neste caso é como se eu mesmo o fizesse. O donativo como desencargo de consciência não tem sentido. Pode ajudar a entidade que o recebe, mas não tem valor espiritual para quem dá. Que é uma coisa boa, não resta dúvida. O por que dou e como dou é que é a questão. Quantas entidades há na Igreja Católica, e também em outras religiões, que desenvolvem trabalhos assistenciais que com certeza atraem bênçãos especiais de Deus para toda a Igreja. Em São Paulo há o Amparo Maternal, por exemplo, que é uma obra extraordinária. Acolhe mães solteiras, normalmente abandonadas à própria sorte. Ou mães pobres que não teriam condições dignas de dar à luz a seus filhos. O Amparo Maternal acolhe, dá toda assistência e acompanha, mãe e filhos, nos primeiros dias. Mas quantas vezes ficam por um longo período, pois aquelas mães não têm para onde ir. Conversando com a Irmã Rita, ela me dizia: “Os milagres aqui são constantes. Vivemos da providência de Deus. Ainda outro dia tínhamos contas altíssimas para pagar e estávamos sem dinheiro. Fui diante do Sacrário e falei para Jesus da nossa situação e pedi ajuda. No mesmo dia recebemos a visita de um grupo de senhoras da Europa que nos trouxeram uma oferta que deu para pagar tudo e ainda sobrou. Outras vezes são pessoas simples que nos procuram e dão seu pequeno donativo que, temos que admitir, são anjos que nos visitam, pois sempre chegam na hora em que mais precisamos”. E assim, quantos casos temos pelo Brasil afora de instituições que estão esperando o donativo daqueles que sentem no coração o desejo de amenizar o sofrimento humano. Quantas instituições já existem hoje que fazem trabalhos espetaculares de evangelização pelos meios de comunicação. Para evangelizar através destes meios é preciso muito dinheiro. Mas vale a pena, pois eles atingem as massas, pessoas que normalmente não atingimos por meio de nossas liturgias nas paróquias. É bom ajudar estas entidades. Nesta ajuda, é como se eu estivesse pregando pelo rádio ou pela televisão. O mesmo se diga acerca das congregações religiosas que se dedicam à evangelização e assistência social. Estarei catequizando, ajudando com meu donativo. Aquele irmão alcoólatra ou drogado que está sendo recuperado, sou eu que estou ajudando neste processo quando faço meu donativo com amor. Vejam que são atividades que não dependem de nós querermos fazer, pois exigem especializações, vocação, chamado especial para realizar tal tarefa. Neste caso meu donativo é válido e, com certeza, agrada a Deus. Mas não posso tirar isto do meu dízimo, pois não seria mais eu ajudando. Posso dar donativo da parte que é minha. Quando é Caridade? A caridade é outro aspecto interessante na nossa vida social e cristã. Como nos donativos, vai de encontro às necessidades de pessoas carentes, que dependem literalmente da ajuda. Sem ajuda estariam na marginalidade, no sofrimento, na exclusão dos direitos fundamentais de cada cidadão, de cada filho de Deus. Na maioria das vezes é a própria pessoa necessitada que vem ao nosso encontro pedindo o que necessita. É uma situação que nos coloca frente a frente com o necessitado, com todas as suas expressões de sofrimento. É difícil não responder, ou deveria ser impossível, não responder positivamente a este clamor. A caridade é o supra-sumo do amor cristão. Sem a caridade de nada adianta tudo o que dou, mesmo que seja a distribuição de todos os meus bens, nos diz São Paulo. E é aí que temos que ter cuidado para não estragar o que seria um ato de caridade. Tornando-se um ato de exibicionismo pessoal ou assistencialismo tolo. Perguntada, a Irmã Tereza de Calcutá dizia que “caridade é dar até doer”. Dou do que é meu, algo que representa a mim mesmo, sem constranger o que recebe; ao contrário, fazendo tudo de tal forma que o necessitado se sinta orgulhoso por estar me dando tal oportunidade porque, “ a caridade cobre multidões de pecados”. (I Ped.4,8). Antes da minha conversão ao dízimo, de vez em quando batia aquela angústia, o peso na consciência, e então eu fazia uma cesta de alimentos e levava para uma família pobre. Era sempre uma experiência interessante. Fazia-me bem naquele momento. Quantas vezes aquela família dizia estar sem alimentos há vários dias e se comovia com o presente. Eu também ficava comovido e gratificado porque aquelas pessoas se desmanchavam em agradecimentos. Na minha cabeça estava a idéia de que, se uma parte do dízimo é para os pobres, porque não dá-lo diretamente? Certamente que aqueles alimentos foram importantes para aquelas pessoas pobres, matou-lhes a fome por um tempo. Mas para mim, de que adiantou? Em pouco tempo a emoção passava e a angústia no meu coração continuava. Por quê? Porque aquilo nunca foi dízimo, não poderia ser, pois eu o estava administrando, quando não posso administrá-lo. É tarefa dos encarregados na comunidade onde deve ser entregue o dízimo. Também não era caridade, porque por trás estavam meus interesses, meus problemas interiores: eu queria era me sentir bem, eu, na realidade, não estava preocupado com aquela gente sofredora. “Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que faz a direita; assim tua esmola se fará em segredo, e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á”(Mat.6,3-4). Para concluir, tudo é bom, tudo é importante e necessário, mas sem um dízimo consciente é de se questionar a validade de uma oferta, do donativo ou da caridade. Antoninho Tatto tatto@meac.com.br 011 5188-6266 www.catolicanet.com.br www.meac.com.br